sábado, 15 de setembro de 2007

Das coisas que são substituíveis





Das coisas que são substituíveis


Quem já trocou de emprego ou mesmo de sessão no trabalho, entre os costumeiros elogios da despedida, deve ter ouvido o famoso “ninguém é insubstituível”.

De fato, sempre virá alguém que, na passagem dos dias, aprenderá o que você de outro aprendeu e dará conta do recado.

Mas será que tudo na vida é substituível? Parece que sim.

A gente sempre ouve falar isso. E algumas vezes, de tanto ouvir o chavão, acabamos por reproduzi-lo. Automaticamente.

Então está decidido: tudo na vida é substituível.

Me peguei pensando nisso desde cedo.

Enumerei coisas, listei objetos, pensei em nomes... quantas coisas e pessoas eu substitui ou planejei substituir na vida! Caramba!

Mas, à medida que caminhava do externo pro interior, do de fora pro de dentro, de repente divergi.

Aí, eu comecei a duvidar.

Existem coisas que, realmente, uma outra pessoa pode fazer com a mesma perícia que você, ou talvez até melhor.

É possível substituir o dentista e o professor de ginástica localizada.

É possível trocar de padaria e comer pão quente no café da manhã, sem que seu paladar reclame da troca de padeiro.

É possível trocar os móveis da sala, do quarto, a geladeira que foi fazendo mais e mais barulho com o passar dos anos. E trocar de objetos é até mais fácil. Menos doloroso que trocar as pessoas com as quais construímos nosso ciclo do cotidiano.

É possível trocar de amante. A gostosa de quarenta por duas de vinte ou o garotão inexperiente pelo quarentão de olhar sedutor e performance nota dez.

Mas se você parar e pensar bem, verá que nem tudo é substituível na vida.

Não dá para substituir o primeiro animalzinho de estimação ou a cumplicidade do irmão preferido.

O amigo de infância com quem roubava mangas e tomava banho escondido no rio, e do qual você não escuta falar a décadas.

Não dá para substituir a lembrança da casa do avô, onde tudo cheirava a eternidade, mesmo sabendo que o avô já não existe mais e sua casa foi demolida para dar lugar a uma oficina ou a uma loja de peça de motocicleta.

Não dá para substituir o gesto do estranho que estendeu a mão quando você caiu da bicicleta e recomendou arnica para o ferimento não inflamar.

Não dá para substituir a paciência do pai ensinando a andar na tal bicicleta.

Não se substitui o amigo de faculdade que foi morar em outro país e não sabe quando voltará por aqui. Talvez nunca volte.

Não são passíveis de substituição: o livro preferido; o gibi da infância; goiabada com queijo; a camiseta já surrada, presente da tia que mora longe; o lençol de flanela nas noites de frio.

Dá para substituir amor de mãe?

Não dá.

Um pai não substitui o filho que morreu.

Não se substitui o afeto.

Não é possível substituir o amor.

Encontra-se outro. Mas nunca é o mesmo.

Pessoas vão e vêm na nossa vida, porque, ao que me parece, essa é uma das leis silenciosas do universo. Com algumas coisas também é assim.

Mas cada uma delas se torna insubstituível, quando acessa e se instala nas gavetas do nosso coração.


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