sábado, 21 de fevereiro de 2009

Centrinho - Bauru

Parque Vitória Régia em Bauru

"Eu nasci com Lábio-Leporino. Tenho cicatrizes aparentes, mas elas não são maiores do que as cicatrizes causadas pelas coisas que vi e ouvi. Tenho marcas visíveis nos lábios, mas elas não são maiores dos que as marcas que deixo nas pessoas que considero como amigos." Frase de Bianca Collere


Hoje vou partilhar com vocês uma aventura pessoal nada fácil!!! Desde os meus sete anos que eu viajo para Bauru no Estado de São Paulo onde faço tratamento. Eu nasci com má-formação lábio palatal. Eu fui contemplado (1 em cada 650 crianças nascem assim)eu fui premiado com algo que tive que aprender a lidar desde criança.

Quem nasce assim passa por uma série de desafios, o tratamento é demorado e tem que ter muita paciência, cada caso é um caso, eu tive fenda palatina em apenas um lado, lábio e palato, há casos em que a criança nasce com fendas nos dois lados. Eu já passei por 7 cirurgias e hoje vou relatar como foi a minha sétima cirurgia. As 3 primeiras cirurgias que eu passei, eu era criança e não me recordo de nada. Depois de adulto eu fiz mais três cirurgias em 1995 com 20 anos, 1996 e 1997. Portanto de 1997 pra 2009 foram 12 anos sem operar, fiquei mais velho e mais medroso.

A cirurgia que fiz desta vez foi enxerto ósseo alveolar secundário, em outras palavras o cirurgiao raspa o osso da bacia (ilíaco), faz um “meladinho” e põe no local da fissura, falando assim até parece coisa simples mas pra quem é paciente não é assim tão fácil... Eu tenho medo de anestesia geral e nossa imaginação pensa um monte de coisas, isto por causa das coisas que a gente ouve por aí, se a gente nao desse tanto ouvido às coisas que nos contam, a gente nao seria tão medroso, sabia???

O que mais me angustia em ter que operar é o pré-operatório, a pressão psicológica que eu mesmo faço, os medos, as angústias, as preocupações, chego a não dormir direito preocupado, com medo, choro muito. Daí, viajo, saio de Brasília e vou até Bauru, chegando em Bauru, faço os exames pré-operatórios, daí tenho que lidar com o medo de não operar, o medo de acontecer alguma coisa que me impeça de operar. É coisa de louco porque no fundo não quero operar mas pior do que não operar seria voltar pra casa sem operar. A cirurgia no caso tem um caráter psicológico muito forte em mim, tanto que quando acordei da anestesia, acordei chorando, não era de dor, mas chorando de emoção por ter me livrado do peso da minha consciência que dizia “tem que operar”, emoção por ter conseguido, por ter passado pela fase mais difícil.

Eu operei na quinta feira (12 de fevereiro) e só ganhei alta uma semana depois, ou seja, fiquei 7 dias no hospital, enquanto os pacientes que operaram comigo sairam dois dias antes de mim. Teve paciente que operou na sexta feira (13/02) e segunda feira já ganhou alta. Quanto mais novinho o paciente, mais rápida e mais facil a recuperacao. No meu caso, como sou um ancião de 33 anos, tive muita dificuldade pra andar nos três primeiros dias. Tudo o que eu ia fazer, eu era o último a chegar. Primeiro dia pra se locomover é na cadeira de rodas, segundo dia a gente já é promovido pra bengala, terceiro dia eles tiram a bengala e a gente começa a andar mancando, o chato é depender dos outros pra coisas simples como ir ao banheiro, o pós-operatório eu precisei muito de um acompanhante porque é dificil pra levantar, é dificil pra sentar, pra deitar, pra encontrar uma posição confortável na cama, pra virar, pra colocar uma cueca por exemplo e se sentir vontade de tossir ou espirrar... meu Deus... o melhor que eu tinha que fazer era esperar a vontade passar porque putz dói pra tossir, dói pra espirrar!

É o tipo de cirurgia que realmente precisa ter acompanhante e como eu nao quis levar minha mãe, tive que depender dos outros mas mesmo assim, tive o carinho das outras mamães dos pacientes que operaram comigo e elas cuidaram muito bem de mim. O que mais me angustia agora é saber se o enxerto deu certo. Só vou saber daqui dois meses quando retornar. Eu estava super angustiado antes de operar, mas depois que a gente opera as preocupacoes são outras, me preocupo com a dieta liquida, (40 dias só no liquido - ainda bem que existe açaí no mundo!!!) eu sinto vontade de comer toda hora, tenho que me alimentar de duas em duas horas e complementar a minha alimentação com suplementos porque não posso perder peso de jeito nenhum, vou ficar sem dirigir alguns dias, não posso tomar sol, me preocupo em nao fazer esforco físico, tranquei a academia por três meses, o que eu mais quero no momento é que o tempo passe logo pra eu ficar sarado, pra acabar logo a dieta liquida, (afinal tou doido pra comer normalmente -- hum que vontade de comer comida mexicana!!!) e principalmente saber se tudo deu certo para poder dar continuidade ao próximo passo do tratamento.

Mas eu digo uma coisa... mesmo tendo passado por isso... sabe que eu nao reclamo??? Encaro na boa! Passaria por tudo isso na boa de novo se existisse reencarnação e eu nascesse assim porque sinceramente pelas coisas que eu vi por lá, meu caso é fichinha, seria muito injusto da minha parte reclamar, eu só tenho a agradecer, afinal, tenho o privilegio, a oportunidade de me tratar em um centro de excelência, se nao for o melhor do mundo, posso afirmar com toda certeza que é o melhor lugar da América pra se tratar.

Uma das coisas que aprendi nesta experiência foi combater o sentimento de auto-piedade, não existe sentimento mais destruitivo do que este, ao invés de sentir pena de si mesmo devemos olhar ao nosso redor e ver o quanto somos felizes com o que temos. Em Bauru vi vários casos de pessoas com um tratamento mais complexo que o meu e muito mais disposto e animado para dar continuidade ao tratamento. Isto é um incentivo.

Parte Interna do Centrinho - um hospital que tem como filosofia os princípios de São Francisco de Assis

É uma coisa impressionante o carinho, a competência e a dedicação de todos os funcionários do Centrinho, nome carinhosamente dado ao Hospital de Reabilitação de Lesões Lábio Palatais - aliás, o hospital cresceu e mudou de nome, chama-se Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais, um nome tao grande mas que carinhosamente chamamos de Centrinho, o Centrinho é um orgulho para a cidade de Bauru pois recebe pacientes de todos os lugares do Brasil e da América Latina.

Outra coisa que me emocionou bastante no Centrinho foi a lição de amor dos pais que viajam horas e horas para levar seu filho pra se tratar lá. Conheci uma senhora que mora em Macapá e que adotou uma criança linda, fez uma viagem super longa pra levar o filho dela pra operar. Fiquei pensando, ela poderia ter adotado um bebê perfeito mas preferiu adotar uma criança assim, é muito grande o coração desta mamãe, é muito bonito saber que o amor existe e que há muitas pessoas boas neste mundo!


Depois que a gente passa por tudo isso, a gente sente orgulho da nossa história e de cada momento em que a gente tem que ser forte pra encarar tudo isso. Bom humor e otimismo ajuda muito.

Depois de operado, a angustia, o medo a ansiedade que eu sinto é em saber logo o resultado desta cirurgia. E só vou saber daqui dois meses... tenho que lidar com o medo de não dar certo e de tudo isso ter sido em vão, melhor não pensar nisso, ser otimista e afirmar com convicção que depois de tudo o que eu passei, eu mereço que tudo isto tenha valido a pena!!! Modesta parte, acho que mereço sim, todos os que passam por isso, com coragem, com esperança , com medo mas principalomente mais esperança do que medo, todos os que vivenciam esta situação desta forma merece sim senhor! Sou um vencedor!

Quero agradecer a minha amiga Paulinha do fã-clube UJA de Zélia Duncan que viajou de São Paulo até Bauru (4 horas) só para me visitar! Você não sabe o quanto eu fiquei feliz, quando a gente fica internado em um hospital a gente se sente muito fragilizado, receber uma visita dessas faz a gente se sentir querido e importante para alguem!

Eu e Paulinha

Se alguem ler esta postagem e conhecer alguma criança que precise deste tratamento, por favor, entre em contato comigo pois eu posso orientar esta mamãe para fazer o tratamento no Centrinhoo, ou se preferir acessem o site do Centrinho http://www.centrinho.usp.br/

E para encerrar esta postagem, selecionei do CD Cidade do Samba 2007, uma canção do Zeca Pagodinho que eu gosto muito e que eu cheguei a cantar no grupo vocal que eu participei, Celacanto, esta letra traduz exatamente o sentimento que tenho agora. Ouçam a canção, um dueto super bacana de Beth Carvalho e Diogo Nogueira. Desejo a todos um bom carnaval, o meu será em casa dançando em frente a televisão e tomando papinha de nenem!!!




Parte Interna do Centrinho - Foto de Fabiano Teles


Parte Interna do Centrinho - Foto de Fabiano Teles



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