domingo, 31 de agosto de 2008

Ausência


eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces,
porque nada te poderei dar, senão a mágoa de me veres eternamente exausto.


no entanto, a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
e eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.

não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.

quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados,
para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
que ficou sobre a minha carne, como nódoa do passado.

eu deixarei… tu irás e encostarás a tua face em outra face.

teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.

mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.

porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.

porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.

e eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.

eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos.

mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.

e todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.

serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

(Vinícius de Moraes)
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