sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Zélia Duncan fala sobre "Tua" e "Encanteria" de Maria Bethânia



ZÉLIA DUNCAN
ESPECIAL PARA A FOLHA DE SÃO PAULO


Chegam então na minha casa "Tua" e "Encanteria", os novos álbuns de Maria Bethânia. Pensando no "álibi de ter nascido ávida", abro o envelope com pressa e começo a tentar ouvi-los pelas imagens. Sou da geração que acredita nas capas, que precisa delas. São fotos verticais, que apontam aos meus olhos que o caminho é sempre mais que a chegada e que ela, já tão imensa, sempre estará disposta a crescer.

A contracapa me dá outras pistas. Em uma, "Tua", há uma impossível bússola entalhada pelas palavras "love", "yes", "no", "me", num quase coração de ferro, onde uma seta aponta para a palavra "yes". Sim, o coração de Bethânia diz sim. Na outra, "Encanteria", suas mãos, pintadas de um vermelho índio, tocam o tronco de uma árvore. Bethânia sempre encosta no fundamental, se alimenta de suas raízes, não as perde de vista.


Fone nos ouvidos para não perder nada, deixo Bethânia desfolhar as melodias que escolheu em "Tua". Ah, o sentimento de cantar, o sopro desse instrumento misterioso que mora dentro da gente.

Preciso de duas audições para absorver também os outros instrumentos, se não Bethânia me leva sozinha para o seu universo onde a voz se basta.

O piano de João Carlos Assis Brasil me traz do transe vocal para o transe da primeira canção como um todo. Afinal, os autores Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro abrem os trabalhos com jeito de clássico.


Não à toa, composições de Roque Ferreira, conterrâneo de Bethânia cada vez mais cantado, aparecem em três ocasiões, inclusive no encerramento, com direito ao acordeon musette (sonoridade mais francesa) de Toninho Ferragutti. Sempre que Bethânia canta algo de Adriana Calcanhotto eu as ouço como uma dupla. Algo certo, justo, inteiro e emocionante. A faixa-título, "Tua", não me deixa mentir.

"Fonte" (Saul Barbosa/ Jorge Portugal) e "Você Perdeu" (Márcio Valente/ Nélio Barbosa), separadas por uma citação ("Dama, Valete e Rei"), chegam rasgando a cena, com um jeito deliciosamente popular.

Lenine abre a linda "Saudade" (Chico César/Moska) como cantor convidado, fazendo jus ao convite, com a verve de quem ouviu muito Bethânia pela vida. "Saudade desigual, nunca termina no final."

"Quero nada que clareia, quem clareia aqui sou eu." Aqui, Bethânia é natureza, prece, reafirmação do olho d'água de sua vida e de seu canto.

Mas, ainda assim, inédita, trazendo a brisa do que está sempre sendo descoberto por ela. O prazer renovado de estar em cena porque tem muitas coisas para dizer. Roque Ferreira e sua produção generosa aparecem não menos que quatro vezes, ao lado de Paulo Pinheiro, Pedro Amorim, Jaime Alem, Consuelo de Paula, Etel Frota, Rubens Nogueira, Vanessa da Mata e Vander Lee. Caetano e Gil se revezam na irresistível "Saudade Dela" (Roberto Mendes/ Nizaldo Costa) para matar nossa saudade dos três juntos.


"Encanteria" não é mais brasileiro, porém soa mais regional e enraizado, conforme prometia a linda contracapa. Agora, misturo "Encanteria" e "Tua" para tentar entender por que eles são dois, mas confesso que, no meu iPod, vou passar de um para o outro sem perceber. Mais do que ponte, a alma da voz amarra os assuntos, os autores e tudo mais que se transforma no desejo de Bethânia de abrir a boca e nos levar para onde ela quiser. Assim como no Flautista de Hamelin, seguimos desarmados e felizes pelas estradas da Bahia e do mundo.

Related Posts with Thumbnails
Postar um comentário