sábado, 15 de maio de 2010

Crônica: Apetite candango

Na Aventura Musical de hoje trago a crônica que Zélia escreveu para a Revista Veja Brasília, confiram:

Zélia no Brasília Palace Hotel - Foto extraída do twitter da cantora

Crônica

Apetite candango

Zélia Duncan



Cheguei a Brasília com minha família em 1971, aos 6 anos de idade — quando meu paladar começou a se desenvolver. Portanto, aprendi a comer no Planalto Central, que não tem exatamente um prato típico, mas muitas influências de vários lugares de onde vinham os forasteiros para construir o sonho da capital.

Pamonhas, ah, pamonhas doces eu aprendi a idolatrar num lugar chamado Pamonhão Kalu (alguém se lembra?), na 110 Sul. Hoje funciona em outro endereço, na 105 Norte. Ali, não mais. Bem naquela pequena loja havia as queridas pamonhas e uma inacreditável coxinha de milho. Fica aqui minha eterna homenagem ao lugar. Até hoje, nas viagens para cantar pelo Brasil afora, eu faço minhas pesquisas para saber onde encontro tal iguaria. Pamonha doce, recheada de queijo branco, de preferência, que para mim tem gosto da infância candanga!

No meu tempo de adolescente, devorávamos com voracidade a pizza da Dom Bosco, na 107 Sul, com o umbigo encostado no balcão do pequenino estabelecimento, que depois ganhou filiais, cresceu e apareceu! O charme era pedir uma fatia. Saía na hora, derretendo pelo guardanapo abaixo e provocando risadas dos amigos que, sempre juntos, matavam aula. A pizzaria Dom Bosco ficava na rua em frente ao querido, salve, salve Truc’s (ou seria com “k”?). Lá, outro objeto fortíssimo de nossos desejos juvenis nos esperava sempre: o macaquito! Falo e minhas mandíbulas se enchem d’água… Tratava-se de um crepe de banana com queijo, açúcar e canela. Dava para dividir, embora não fosse o ideal para quem estava em fase de crescimento… para os lados, inclusive.


E seria estupidamente injusto da minha parte não citar aqui o kibeirute, afamadíssimo quibe do inestimável Beirute, que ainda fica na minha ex-quadra, 109 Sul. É um quibe achatado, recheado de queijo, uma maravilha em destaque na memória afetiva dos meus tempos de riponguinha. Tempos adoráveis para mim. O Beirute era um local de encontro dos artistas da cidade. Nicolas Behr vendia seus livros artesanais de poesia, a banda Liga Tripa adentrava cantando e tocando pelas mesas e íamos fazendo um intercâmbio de intenções e talentos, esperanças e desejos de um futuro no qual pudéssemos nos expressar. Aliás, nesse aspecto, o kibeirute reinava tão absoluto que apareceu uma versão a cavalo, com um clássico ovo frito “on top”. Ah, sim, era o maior hit da noite!

Nos últimos tempos eu andei frequentando um mexicano, El Paso Texas. Também gostei muito dos pratos ousados e bem saborosos do Zuu a.Z. d.Z. Mas minha paixão nordestina agora se expandiu também para o Centro-Oeste e se chama Mangai. Originalmente da Paraíba, com muitos pratos típicos, um sonho! Tapioca de nata com carne de sol; de sobremesa, tapioca ensopada. E mil outras opções, naquele formato de bufê do sertão. Preciso sempre passar por lá, desde que inauguraram. É delírio, gente, delírio!

Eu já não como com aquela boca imensa dos anos 70, 80, mas esses sabores todos estão na minha memória, guardados com imenso carinho e cuidado. Brasília me alimentou durante dezesseis anos, à base de temperos, amigos e canções, de que hoje eu tiro meu sustento emocional e profissional. Jamais vou perder esse apetite. Pelo contrário. Esse apetite eu cultivo com muito prazer.


Zélia Duncan é cantora e compositora

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